Confira a entrevista do Mês com Véronique Forat Montero, publicitária.
O Blog Muitos Filhos realizará entrevistas com profissionais especializados em diversas áreas do conhecimento, que atendem crianças, bebês e mães. A segunda entrevista foi realizada com a publicitária Véronique Forat Monteiro. Agradecemos a Véronique pelo tempo e informações importantes.
Entrevista de Lupita com Véronique
Forat Montero, franco-brasileira, publicitária, mãe de Olivia, 21.
QUANDO A CRIANÇA NÃO SE ADAPTA À ESCOLA
L.: Véronique, eu gostaria de
conversar com você sobre a sua experiência a respeito da criança que não se
adapta ou não se da bem na escola, como foi o caso com a sua filha. O que você vivenciou?
V.: foram várias etapas bastante
diferentes entre si, então vou começar pela escolha da escola no ingresso ao
Fundamental 1 (que às vezes também condiciona a escolha da pré-escola, mas não
foi o nosso caso). Nessa etapa,
considero que o meu marido e eu cometemos o erro de escolher uma escola
pensando numa filha "futura", levando em conta também fatores muito
distantes, como o vestibular. Enfim, imaginando que estávamos fazendo uma
escolha "definitiva".
O FILHO IMAGINÁRIO
L.: Escolheram a escola já
pensando na vida adulta, segundo os parâmetros da sociedade moderna?
V: Exatamente. Mas o problema é
que esse "filho adulto" é uma fantasia, produto da imaginação dos
pais, inclusive porque é difícil - ou pelo menos foi para nós - perceber que o
seu filho, desde bebê, é um indivíduo plenamente diferenciado, separado dos
pais. Que ele ou ela já tem gostos e interesses próprios e que, com o tempo,
poderá inclusive adquirir valores completamente diferentes dos seus. (Diga-se
de passagem, é isso que torna a maternidade / paternidade tão rica.)
Mas o que eu quero dizer é que,
quanto menor a criança, mais você está fazendo uma escolha de escola "no
escuro". Por isso, é bom estar preparado para não acertar na primeira a
escola que melhor "combina" com esse pequeno indivíduo e suas
necessidades próprias naquele momento, que dirá no futuro!
OUTROS PARÂMETROS NA ESCOLHA
L.: Quais são os outros parâmetros
que vocês levaram em consideração na escolha da escola para a Olivia?
V.: Para nós, era importante que
fosse uma escola laica e que fosse bilíngue.
Para outros pais, podem ser
características completamente diferentes, como o meio social, a proximidade de
casa, o tamanho do campus, a educação religiosa, a tradição familiar...
O QUE É UMA BOA ESCOLA
V:: Eu diria que a maioria dos
pais procura uma "boa" escola, o que, na minha opinião, também é
muito relativo.
L: Por que?
V: Porque mesmo que a escola tenha
uma boa reputação - por exemplo, taxa de sucesso no vestibular - o que
acontece, na prática, é uma "química" única na turma de alunos onde o
seu filho está, tanto entre eles quanto com aquela professora.
Duas turmas do mesmo ano, na mesma
escola, podem ser completamente diferentes. E se a escola escolhe manter os
alunos numa mesma turma, ano após ano, o seu filho pode passar anos a fio numa
turma "ótima" ou numa turma "péssima".
Pessoalmente, apesar de que a
criança geralmente prefere permanecer junto com os amigos, acho muito mais
saudável repensar a composição de cada turma no começo de cada ano, para
permitir mudanças de dinâmica.
SINAIS DE QUE ALGO VAI MAL
L: Voltando à sua primeira escolha
de escola, quais são os sinais que você percebeu de que algo ia mal?
V: No nosso caso, tínhamos acabado
escolhendo para a Olivia a escola onde eu tinha estudado (sei que isso é uma
decisão bastante comum, tomada por muitos outros pais, mas mostra bem
claramente o nível de projeção dos pais sobre a criança). Fomos acompanhamos
bem de perto a vida escolar e fomos reparando que ela era muito criticada pelas
professoras, que a escola tinha uma expectativa, para todos os alunos, de um
comportamento e desempenho "padrão" que ela não estava cumprindo, e
que isso a deixava muito frustrada e foi jogando a autoestima dela lá embaixo.
O MOMENTO DE TROCAR
L.: E quando você achou que era o
momento certo para trocar de escola?
V.: Percebemos que ela era
inteligente e esforçada, mas que não estava conseguindo se encaixar nesse
"padrão". Falamos muito com a equipe pedagógica, mas chegou uma hora
em que ficou claro que simplesmente que não valia a
pena insistir: não havia "encaixe" entre essa escola e a
nossa filha.
SENTIMENTOS DOS PAIS
L: Geralmente os
pais vivem esse problema como uma derrota ou em todo caso uma grande
frustração, não?
V: Não vou dizer que foi fácil
para nós, mas acho que tivemos a lucidez de não ficar "dando murro em
ponta de faca". E isso acabou virando uma oportunidade de
crescimento para nós: conseguimos abrir mão de um certo narcisismo e entender
bem melhor essa "pessoa" que era a nossa filha.
L: Na prática, como vocês lidaram
com essa situação?
V: Começamos imediatamente a
procurar uma escola que fosse mais adequada para o que tínhamos aprendido
sobre as necessidades e gostos da Olivia. Visitamos algumas - dessa vez, com a
mente bem mais aberta - e fizemos a mudança no meio do ano letivo, na
volta das férias de julho.
A nova escola era o oposto da
outra, e muito diferente do que imaginávamos escolher um dia, mas tinha "a
cara dela" e foi um sucesso.
Ela adorou, desabrochou e foi uma
ótima aluna. Acabou ficando lá até o final do Fundamental 2.
ESCOLHER A ESCOLA PARA A CRIANÇA E
COM ELA
L.: Na sua opinião, é melhor
escolher a escola com ou sem a criança?
V.: Acho que depende da idade. Nessa
mudança, ela já tinha 7 anos, e a levamos para conhecer e opinar antes de
começar, para avaliarmos juntos.
L.: Sim, juntos, cada um com
as próprias capacidades, experiências e opiniões.
V. Exatamente. E, posteriormente,
foi ficando cada vez mais fácil "acertar" para a Olivia, à
medida que ela foi crescendo e sentiu que sempre tinha espaço para se colocar e
ser ouvida, mesmo nos - muitos - casos em que a gente não concordava com
ela!
MUDANÇA NO ENSINO MEDIO
L: Você mencionou que ela a voltou
novamente a mudar de escola no Ensino Médio, não?
V: Sim. No nosso caso
particular, achamos que ela estava meio "encostada" e que seria
estimulante ela ir para uma escola mais exigente, em termos de esforço. Apesar
de que foram três anos bem puxados, foi uma boa mudança. Ela adorou, teve um
ótimo desempenho e fez muitos amigos.
Mas, fora os nossos motivos
particulares, percebi que a mudança de escola nessa idade é muito comum,
meio um "ritual de passagem".
L.: É bom que os pais saibam
disso, para ir se preparando algum tempo antes, escutando o próprio filho
e conversando com ele.
V.: Com certeza. Acho que o ideal
é começar a falar desse assunto com o filho mais ou menos um ano antes.
Permite ter um espaço de discussão, inclusive para que os pais possam ajudar
o filho na escolha.
APRENDENDO ESCOLHER A ESCOLA AGORA
L.: Concluindo, quais foram os
seus principais aprendizados sobre esse assunto?
V.: Diria que o primeiro, é a
importância de tentar entender do que o seu filho precisa AGORA, sem se
preocupar demais com o futuro, porque seu filho ainda vai mudar muito. Essa
questão do futuro só deveria aparecer no Ensino Médio.
O segundo, é não ter medo de
errar: estar preparado para mudar de escola.
E o terceiro, é que "a melhor
escola" é aquela em que o seu filho tem prazer de ir e prazer de aprender.
Isso, pelo menos até o final do Fundamental 1.
L: Mais alguma dica?
V.: Como complemento do que eu
falei logo acima, vejo pais decidirem com frequência que todos os filhos
têm que frequentar a mesma escola.
Isso tem muito mais a ver com
simplificar o dia a dia nos deslocamentos ou conseguir desconto para os
irmãos, do que com a personalidade de cada filho, que é única. Minha sugestão é que os pais estejam pelo
menos abertos a colocar os filhos em escolas diferentes...